História – Alentejo

Alentejo   •  Vinhos e Gastronomia  •  História

Foram os Fenícios e os Gregos, que trouxeram do Próximo Oriente bastantes castas para esta região e que, achando o clima ameno e as encostas da Arrábida e a zona ribeirinha do Tejo boas para o cultivo da vinha,se lançaram no seu plantio.

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Mais tarde os Romanos e os Árabes deram grande incremento à cultura da vinha nesta península.

Como se sabe foram os Romanos os primeiros a trazer para a Península Ibérica a cultura da vinha e o fabrico do vinho de forma organizada, com finalidades comerciais que ultrapassavam o auto-consumo. Da ocupação romana, diversas práticas e utensílios subsistiram até aos nossos dias, sendo o mais notável a conhecida talha de barro que ainda hoje é utilizada nas pequenas adegas particulares da região e também por alguns produtores engarrafadores.É de salientar a existência de provas documentais a partir dos séculos XV e XVI em relação quer à exportação dos Vinhos do Alentejo para várias partes do mundo quer à sua participação com êxito em vários certames internacionais.Como principais destinos referem-se a Índia, África, Brasil, Flandres, entre outros.Assim, antes mesmo da exportação dos vinhos do Douro e do tão afamado Vinho do Porto, o nosso mercado exportador, levava para fora vinhos provenientes do Sul de Portugal, apreciados pelas suas qualidades, como a sua cor intensa e o seu elevado grau alcoólico.

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Com a fundação do reino de Portugal, vieram outros povos, nomeadamente os Francos, povos de antiquíssimas tradições vitícolas, que incrementaram a produção de vinho nesta região, tradição que ainda hoje prevalece.

No século XV a cultura da vinha era extremamente importante nas zonas de Évora (aqui existiam mais de 3000 hectares, onde se produzia o famoso vinho de Peramanca, nos arredores da cidade), Beja, Cuba, Alvito, Viana e Vila de Frades.

No século XIX, devido ao aparecimento catastrófico do oídio, míldio e filoxera, os viticultores viram-se obrigados a realizar consociações entre videiras e olivais, para sobreviver.

No século XX, a criação das Adegas Cooperativas a partir do ano de 1958, veio dar novo ânimo aos viticultores e fazer renascer a cultura da vinha e do vinho. Assim, nesse ano, deu-se a criação da Adega Cooperativa de Borba, seguida da do Redondo, em 1960; depois veio a de Portalegre, em 1962, a da Vidigueira em 1963, a da Granja em 1965 e finalmente a de Reguengos de Monsaraz, em 1972.

a partir dos anos 70, desenvolveu-se um trabalho de base, promovido por diversas instituições, que incidiu na caracterização, investigação e organização da vinha e do vinho alentejanos. Um processo que criou as condições para que, em 1988, a região fosse oficialmente demarcada.

Esta região, pode dividir-se em duas zonas orográficas completamente distintas: uma a sul e sudoeste, montanhosa a acidentada, formada pelas serras da Arrábida, Rosca e S. Luís, e menos relevo nas vertentes norte, abrangendo as serras que se estendem de nascente para poente, formadas pelos montes de Palmela, S. Francisco e Azeitão, recortadas por vales e colinas, com altitudes que vão dos 100 aos 500m. A outra, pelo contrário, é plana, prolongando-se em extensa planície junto ao rio Sado. vidaboa_viagens_alentejo_8

A posterior demarcação das 8 regiões vitivinícolas autorizadas a produzir vinhos VQPRD, veio dar um novo alento e responsabilizar ainda mais a região do Alentejo, que se pode congratular pela qualidade excelente de muitos dos seus vinhos.

A história do vinho e da vinha no território que é hoje o Alentejo exige uma narrativa longa, com uma presença continuada no tempo e no espaço, uma gesta ininterrupta e profícua que poucos associam ao Alentejo. Uma história que decorreu imersa em enredos tumultuosos, dividida entre períodos de bonança e prosperidade, entrecortados por épocas de cataclismos e atribulações, numa flutuação permanente de vontades, com longos períodos de trevas seguidos por breves ciclos iluministas e vanguardistas.
É uma história faustosa e duradoura, como o comprovam os indícios arqueológicos presentes por todo o Alentejo, testemunhas silenciosas de um passado já distante, evidências materiais da presença ininterrupta da cultura do vinho e da vinha na paisagem tranquila alentejana. Infelizmente, por ora ainda não foi possível determinar com acuidade histórica quando e quem introduziu a cultura da videira no Alentejo. O que se sabe, sim, é que quando os romanos aportaram a terras do sul de Portugal, ao território que é hoje o Alentejo, a cultura do vinho e da vinha já faziam parte dos hábitos e tradições das populações locais. Presume-se que os tartessos, civilização ibérica herdeira da impressionante cultura megalítica andaluza, terão sido os primeiros e principais propulsores da domesticação da vinha e posterior introdução do vinho na região.

Os fenícios, civilização sustentada e financiada pelo comércio marítimo, surgiram mais tarde, empenhados como sempre numa demanda obstinada por novas fontes de minérios que permitissem abastecer os mercados do mediterrâneo oriental. Navegando pelos estuários dos rios Guadiana, Sado e Tejo, apoderaram-se, lenta mas inexoravelmente, dos interesses comerciais dos tartessos, condenando a civilização tartessa a um longo declínio.

Os gregos, cuja presença é denunciada pelas centenas de ânforas catalogadas nos achados arqueológicos do sul de Portugal, sucederam aos fenícios no comércio e exploração dos vinhosdo Alentejo. Por esta época, a cultura da vinha no Alentejo, apesar de incipiente, contava já com quase dois séculos de história. A persistência de uma cultura da vinha e do vinho, desde os tempos da antiguidade clássica, permite presumir, com elevado grau de convicção, que as primeiras variedades introduzidas no território nacional terão arribado a Portugal pelo Alentejo, a partir das variedades mediterrânicas.

No entanto, foi com os romanos, profundamente letrados nas principais técnicas agrárias, que se generalizou a cultura do vinho e da vinha no Alentejo.

É mesmo provável, se atendermos aos registos históricos existentes, que a produção alentejana tenha proporcionado a primeira exportação de vinhos portugueses para Roma, a primeira aventura de internacionalização de vinhos portugueses! A influência romana foi tão peremptória para o desenvolvimento da viticultura alentejana que ainda hoje, dois mil anos após a anexação do território, as marcas da civilização romana continuam a estar patentes nas tarefas do dia-a-dia, visíveis através da utilização de ferramentas do quotidiano, como o Podão, instrumento utilizado intensivamente até há poucos anos. Mas foi no aproveitamento das talhas de barro, prática que os romanos divulgaram e vulgarizaram no Alentejo, que a influência romana deixou as suas marcas mais profundas.vidaboaviagens_alentejo7

Talhas de barro para a fermentação de mostos e posterior armazenagem de vinho cuja praxis constitui, ainda hoje, uma prática corrente, parte integrante da afirmação cultural alentejana. Talhas de barro de todos os tamanhos e feitios, com extremos que podiam chegar a conter 2.000 litros de mosto, com pesos próximos da tonelada e uma altura de quase dois metros.

Talhas de barro poroso que obrigavam à impermeabilização com pês, a resina natural de pinheiro, segundo processos ancestrais conduzidos por gerações sucessivas de pesgadores, profissão hoje quase extinta, segundo segredos passados de geração em geração, receitas misteriosas propriedade de cada clã, fórmulas mágicas que conferiam gostos e particularidades distintas a cada talha de barro.

Com a emergência do cristianismo, credo disseminado quase instantaneamente por todo o império romano, e face à obrigatoriedade da presença do vinho na celebração eucarística da nova religião, abriram-se novos mercados e novas apetências para o vinho. A fé católica, ainda que indirectamente, afirmou-se como um factor de desenvolvimento e afirmação da vinha no Alentejo, estimulando o cultivo da videira na região.

Com o prelúdio do século VIII, sobreveio a invasão muçulmana e a subsequente islamização da península ibérica, um movimento inexorável que se manteve vivo durante séculos.

Apesar de durante as primeiras primaveras a ocupação muçulmana se ter mostrado tolerante para com os costumes dos povos conquistados, consentindo na manutenção da cultura da vinha e do vinho, sujeitando-a a duros impostos mas autorizando a sua subsistência, logo nasceu uma intolerância crescente para com os cristãos e os seus hábitos, manifesta no cumprimento rigoroso e vigoroso das leis do Corão. Inevitavelmente, a cultura do vinho foi sendo progressivamente negada e a vinha gradualmente abandonada, reprimida pelas autoridades zelosas das regiões ocupadas. Com a invasão muçulmana a vinha sofreu o primeiro revés sério no Alentejo. A longa reconquista cristã da península ibérica, riscada de Norte para Sul, geradora de incertezas e inseguranças, com escaramuças permanentes entre cristãos e muçulmanos, sem definição de fronteiras estáveis, maltratou ainda mais a cultura da vinha, uma espécie agrícola perene que, por forçar à fixação das populações, foi sendo progressivamente abandonada.

Foi só após a fundação do reino lusitano, concorrendo através do poder real e das novas ordens religiosas, que a cultura do vinho regressou com  eterminação ao Alentejo. Poucos séculos mais tarde, já em pleno século XVI, a vinha florescia como nunca no Alentejo, dando corpo aos ilustres e aclamados vinhos de Évora, aos vinhos de Peramanca, bem como aos brancos de Beja e aos palhetes do Alvito, Viana e Vila de Frades.

Em meados do século XVII, eram os vinhos do Alentejo, a par da Beira e da Estremadura, que gozavam de maior fama e prestígio em Portugal. Desventuradamente, foi sol de pouca dura! A crise provocada pela guerra da independência, logo secundada por nova crise despertada pela criação da Real Companhia Geral de Agricultura dos Vinhos do Douro, instituída pelo Marquês de Pombal como justificação para a defesa dos vinhos do Douro em detrimento das restantes regiões, com arranques coercivos de vinhas em muitas regiões, deu matéria para a segunda grande crise do vinho alentejano, mergulhando as vinhas alentejanas no obscurantismo.

A crise foi prolongada. Foi preciso esperar até meados do século XIX para assistir à recuperação da vinha no Alentejo, com a campanha de desbravamento da charneca e a fixação à terra de novas gerações de agricultores. Nasceu então mais uma época dourada para os vinhos do Alentejo, período que infelizmente viria a revelar ser de curta duração. O entusiasmo despertou quando se soube que um vinho branco da Vidigueira, da Quinta das Relíquias, apresentado pelo Conde da Ribeira Brava, ganhou a grande medalha de honra na Exposição de Berlim de 1888, a maior distinção do certame, tendo sido igualmente apreciados e valorizados vinhos de Évora, Borba, Redondo e Reguengos.

Pouco anos mais tarde, decorria o ano de 1895, edificou-se a primeira Adega Social de Portugal, em Viana do Alentejo, pelas mãos avisadas de António Isidoro de Sousa, pioneiro do movimento associativo em Portugal. Desafortunadamente, este período de glória viria a terminar abruptamente. Duas décadas passadas, já na primeira metade do século XX, sobreveio um conjunto de acontecimentos políticos, sociais e económicos que contribuíram decidida e decisivamente para a degradação da viticultura alentejana. Ao embate da filoxera, somou-se a primeira das duas grandes guerras mundiais, as crises económicas sucessivas, e, sobretudo, a campanha cerealífera do estado novo que suspendeu e reprimiu a vinha no Alentejo, apadrinhando a cultura de trigo na região que viria a apelidar como “celeiro de Portugal”.

A vinha foi sendo sucessivamente desterrada para as bordaduras dos campos, para os terrenos marginais em redor de montes, aldeias e vilas, para as pequenas courelas em redor das povoações, reduzindo o vinho à condição de produção doméstica para autoconsumo. Em poucos anos o vinho no Alentejo, salvo raras excepções, desapareceu enquanto empreendimento empresarial. Foi sob o patrocínio solene da Junta Nacional do Vinho, já no final da década de quarenta, que a viticultura alentejana ganhou a primeira oportunidade de recobro, ainda que de forma titubeante.

Hoje pode afirmar-se com segurança que foi o movimento associativo que deu azo ao ressurgimento da actividade vitícola no Alentejo. Em 1970, sob os auspícios da Comissão de Planeamento da Região Sul, foi anunciado o estudo “Potencialidades das sub-regiões alentejanas“, coadjuvado dois anos mais tarde pelo estudo “Caracterização dos vinhos das cooperativas do Alentejo. Contribuição para o seu estudo“, do professor Francisco Colaço do Rosário, ensaios académicos determinantes para o reconhecimento regional e nacional do potencial do Alentejo. Associando várias instituições ligadas ao sector e tirando proveito das sinergias criadas, o Alentejo conseguiu estabelecer um espírito de cooperação e entreajuda entre os diversos agentes, característica que ainda hoje é uma das imagens de marca dos vinhos  do Alentejo.

Com a criação do PROVA (Projecto de Viticultura do Alentejo), em 1977, foram criadas as condições técnicas para a implementação de um estatuto de qualidade no Alentejo, enquanto a ATEVA (Associação Técnica dos Viticultores do Alentejo), fundada em 1983, foi arquitectada para promover a cultura da vinha nos diferentes terroirs do Alentejo.

Em 1988 regulamentaram-se as primeiras denominações de origem alentejanas, fundamento para o estabelecimento, em 1989, da CVRA (Comissão Vitivinícola Regional Alentejana), garante da certificação e regulamentação dos vinhos do Alentejo.

Beneficiando da ajuda financeira da União Europeia e do espírito empresarial dos agentes económicos da região, a enologia moderna rapidamente assentou arraiais no Alentejo, com as cubas de inox e o controlo de temperatura a permitirem apresentar vinhos modernos e atraentes, capazes de conquistar um país inteiro, de Norte a Sul, de Este a Oeste. É também justo enaltecer o papel primordial desenvolvido pelas adegas cooperativas alentejanas, responsáveis pelo sucesso inicial do Alentejo ao consagrarem vinhos com uma excepcional relação qualidade/preço que rapidamente conquistaram o coração dos portugueses.

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