Vinhos e Gastronomia – Alentejo

Alentejo   •  Vinhos e Gastronomia  •  História

Alentejo é uma das maiores regiões vinícolas de Portugal, com cerca de 22.000 hectares, correspondendo a dez por cento do total de vinha de Portugal. Região quente e seca do sul, é dominada por extensas planícies de solos pobres. As muitas horas de sol e as temperaturas muito elevadas no verão permitem a maturação perfeita das uvas.alentejo wine map

O vasto e diferenciado território do Alentejo encontra-se dividido administrativamente em três distritos, Portalegre, Évora e Beja que, juntos, perfazem as fronteiras naturais do Vinho Regional Alentejano.

Apesar das diferenças regionais vincadas, apesar da multiplicidade de castas presentes nos encepamentos, apesar da evidente heterogeneidade de solos que caracteriza o Alentejo, com afloramentos dispersos de barros, xisto, granito, calhau rolado, calcários e argilas, existem inúmeros traços comuns nos vinhos da grande planície alentejana.vidaboa_viagens_alentejo_16

A fruta farta e sedutora, a suavidade, o corpo cheio e entroncado, e, sobretudo, a enorme consistência que se mantém colheita após colheita, gentileza de uma natureza tão pródiga para a cultura do vinho.

Vinho Regional Alentejano que, por conceder regras mais liberais e maior autonomia na escolha das castas, com a presença de algumas variedades forâneas em consórcio com as variedades tradicionais do Alentejo, castas permitidas e castas recomendadas, acolheu, para além dos produtores cujas vinhas se situam fora das oito sub-regiões com direito a denominação de origem, um conjunto elevado de produtores clássicos.

Condições que justificam o dinamismo invejável, a consistência e a qualidade ímpar a que os vinhos regionais alentejanos nos habituaram.

A cultura da vinha na região remonta à presença romana, após a fundação de Beja, entre 31 e 27 a. C..3 A vinificação tradicional da região é herdeira dos processos Romanos, como a fermentação feita em grandes talhas de barro. Nos anos 1980 o Alentejo foi palco de uma vasta modernização da produção vitivinícola, com inúmeros investimentos, novos produtores e cooperativas, resultando na demarcação oficial da região em 1988 e no reconhecimento internacional dos vinhos alentejanos.

Nos vinhos alentejanos pontuam as castas TrincadeiraAragonez, Castelão e Alicante Bouschet, resultando em tintos encorpados, ricos em taninos e aromas a frutos silvestres. As castas brancas são a Roupeiro, a Antão Vaz e a Arinto, resultando em vinhos brancos geralmente suaves, com aromas a frutos tropicais.

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A Região está subdividida em oito sub-regiões nas quais se produzem vinhos DOC: Reguengos, Borba, Redondo, Vidigueira, Évora, Granja-Amareleja, Portalegre e Moura. Apresenta também uma elevada produção de Vinho Regional, que permite a inclusão de outras castas, como Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon, Syrah ou Chardonnay.

Atualmente é a região com maior crescimento de Portugal. Entre Fevereiro de 2008 e Janeiro de 2009 os vinhos do Alentejo, com Denominação de Origem Controlada (DOC) e Vinho Regional Alentejano, atingiram uma quota de mercado de 44,30 por cento, em valor, e de 40 por cento, em volume.vidaboa_viagens_alentejo_15

No Alentejo, para além das muitas castas autóctones que imprimem um forte carácter regional, variedades perfeitamente adaptadas à geografia e às condicionantes da paisagem alentejana, primam outras variedades forâneas, de introdução relativamente recente, castas de valor reconhecido que reforçam a liderança vitivinícola do Alentejo.

Castas Brancas: Antão Vaz, Arinto Fernão Pires, Roupeiro

Castas Tintas: Alfrocheiro, Alicante Bouschet, Aragonez, Cabernet Sauvignon, Castelão, Syrah, Touriga Nacional, Trincadeira

Gastronomia

A cozinha alentejana é sinónimo de sabor, intensidade e paixão. Extraída do labor secular de gerações, as suas bases são simples, como é simples tudo o que se encontra no campo, e o seu gabarito já está próximo das grandes cozinhas regionais de todo o mundo. Com as transformações competentes e iluminadas que hoje encontramos ao longo de todo o Alentejo, percebemos melhor o seu verdadeiro potencial. Seguindo a orientação geral de todo o país, é uma cozinha fortemente baseada no produto, o que põe ao rubro a necessidade da deslocação a um restaurante e a outro, para depois voltar ou visitar ainda outro.vidaboa_viagens_alentejo2

De repente, damos connosco com saudades de certo prato em certo sítio e não nos fazemos rogados para fazer centenas de quilómetros para a redescoberta. Tem em cozinheiros lisboetas fortes e indefectíveis adeptos, mas até mesmo esses não dispensam a empreitada gastronómica em terras de Alentejo, por muito inspirados que sejam.

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A influência do Norte da África e de Espanha está patente em muitas preparações e pratos. Isto é tão mais notório quanto mais nos inteiramos de que foi do México do tempo dos exploradores espanhóis que chegou à Península Ibérica o tomate, em pleno século XVI.

Hoje, é ingrediente primordial da cozinha alentejana, a que se juntam, numa segunda plataforma, o pimento, milho, feijão e abóbora, por exemplo, todos componentes cruciais do que se reconhece como o “sabor português” – todos são de origem mexicana. A batata, com cerca de dois séculos apenas na gastronomia europeia, produto peruano de excelência, é outro pilar da mesa alentejana.

E acrescem ainda o azeite, as ervas e tudo o que vem do mar, tanto nos seus frutos de conserva, bacalhau, polvo e raia, por exemplo, como na sua expressão mais sublime, vertida na magnífica pescaria que todos conhecemos. É tudo isto o Alentejo, a um tempo herdeiro natural e ponto de convergência das cozinhas mediterrânica e atlântica. Esvanece socialmente da míngua e da fome, muita fome, e por isso é tão veraz e rústica quanto atraente e orientada para o prazer dos sentidos. Não existe a palavra desperdício e muitas das suas glórias provêm da lógica de produto inteiro que anima o lume alquímico das cozinhas alentejanas.

Profundamente ligada à terra e ao que se tem “à mão”, tem soluções para tudo. Fez da beldroega, erva rasteira infestante que os animais pisavam, uma das melhores sopas do mundo.

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Transformou os chispes do porco, dando-lhes a designação carinhosa de “pezinhos”, num prato que quando bem executado é uma experiência sublime de texturas e sabores, sublinhada pelos indispensáveis coentros. Através das suas sopas, migas e açordas, animadas pelo poejo e pelo repetente coentro, atingiu o pleno da sensação nutridora, memória todos os dias reavivada dos tempos em que pouco ou nada havia para as fazer, que não fosse pão duro, banha e restos de carne da matança.

O ciclo de “inovações” alentejanas é vasto e melhor do que falar é experimentar e sentir a grande variedade que por toda a província se dá a provar quando chega a hora de comer. Estabelece-se aqui uma pequena e necessariamente incompleta indiciação de restaurantes onde se faz “a grande experiência” alentejana. A exploração de cada região levará a uma maior completude, de acordo com o gosto de cada um. Quando uma cozinha é bem executada, os seus pratos apresentam-se equilibrados, com pontos de cozedura afinados para cada proteína. Seguindo esta premissa, a harmonização da cozinha alentejana com vinhos não é tarefa difícil, bastando escolher aquele que melhor cumpre a função regeneradora, tanto mais crucial quanto mais apurado e forte for o prato.

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Um bom branco alentejano é quase sempre bom companheiro; um bom tinto, conselheiro; e um bom rosé, prazenteiro.

No branco, encontramos frescura e tropicalidade, complementadas por aspectos de complexidade que o estágio em madeira e a composição de castas confere. Aconselhámo-lo particularmente para acompanhar queijos de pasta mole, pratos de peixe e mesmo alguns pratos de tacho que tenham como base carnes brancas, tomate não muito estufado e feijão.

Ao tinto chamamos “conselheiro” por considerarmos curial escolhê-lo primeiro e o prato apenas depois. A riqueza aromática e a excelência a que chegaram os tintos alentejanos justificam plenamente que se “ouça” o conselho do vinho quanto ao que devemos ou podemos comer. O capítulo dos vinhos rosé, ou rosados, é aquele a que chamámos prazenteiro.

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A estrutura aproxima-o dos tintos, e a festa da fruta viva e fresca que neles se encontra põe-nos totalmente à vontade para explorar a vastíssima panóplia de petiscos que o Alentejo propõe, quase nos tentando a não avançar pela refeição completa adentro. Também nos rosados, os produtores alentejanos têm mostrado trunfos e talentos, com uma procura ávida de novidades.

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