Borgonha – História

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Burgúndios (“os Montanheses”), são um antigo povo de origem escandinava. No Baixo Império Romano, instalaram-se na Gália e na Germânia na qualidade de foederati (“federados” em latim). Tendo procurado se estender na Bélgica, foram abatidos por Aécio em 436 e transferidos para Savóia. De lá, eles se espalharam nas bacias do Saône e do Ródano. Foram submetidos pelos francos em 532 e seu território foi reunido à Nêustria. Deram seu nome à Borgonha.

A tradição burgúndia da origem escandinava, encontra suporte na evidência dos topônimos e na arqueologia (Stjerna) e muitos consideram essa tradição como correta. Possivelmente, por que a Escandinávia estava além do horizonte das antigas fontes romanas, eles não sabiam de onde os burgúndios vinham, e as primeiras referências romanas os localizavam a leste do Rio Reno. Fontes romanas antigas indicam que eles eram simplesmente outra tribo germânica oriental.

Aproximadamente em 300, a população de Bornholm (ilha dos burgúndios), desapareceu quase totalmente da ilha. Muitos cemitérios pararam de ser usados, e naqueles que ainda eram usados havia poucos sepultamentos.

No ano de 369, o imperador Valentiniano I, alistou-os para ajudá-lo na sua guerra contra as tribos germânicas, os alamanos. Nessa época, os burgúndios possivelmente viviam da bacia do Vístula, de acordo com o historiador dos godos. Algum tempo após a guerra contra os alamanos, os burgúndios foram derrotados em batalha por Fastida, rei dos gépidas, sendo subjugados, quase aniquilados.

Aproximadamente quatro décadas depois, os burgúndios reapareceram. Seguindo a retirada das tropas do general romano Estilicão para atacar Alarico I, os visigodos em 406-408, as tribos do norte cruzaram o rio Reno e entraram no Império Romano na Völkerwanderung, ou (migrações dos povos bárbaros). Entre elas estavam os alanos, vândalos, suevos e possivelmente os burgúndios. Os burgúndios migraram para oeste e se estabeleceram no vale do Reno.

Havia, ao que parece, naquela época um relacionamento amigável entre os hunos e os burgúndios. Era um costume huno entre as mulheres ter seu crânio alongado artificialmente por um amarrador apertado na cabeça quando a criança ainda era um bebê. Túmulos germânicos são às vezes encontrados com ornamentos hunos e também com crânios de mulheres alongados; a oeste do Reno apenas sepulturas burgúndias contém um grande número desses crânios (Werner, 1953).

Em algum lugar no leste europeu os burgúndios se converteram ao arianismo, o que passou a ser uma fonte de suspeita e desconfiança entre os burgúndios e o Império Romano do Ocidente católico. As discórdias eram acalmadas por volta de 500, porém, Gundobad, um dos últimos reis burgúndios, manteve uma amizade pessoal próxima com Ávito de Viena, o bispo católico de Viena. Além disso, o filho e sucessor de Gundobad, Sigismundo da Borgonha, era católico, e há evidências que muitos dos burgúndios tenham se convertido na mesma época, incluindo várias mulheres membros da família governante.

Inicialmente, os burgúndios parecem ter tido um relacionamento tempestuoso com os romanos. Eles eram usados pelo império para se defender de outras tribos, mas também penetravam nas regiões fronteiriças e expandiam sua influência quando possível.

Em 411, o rei burgúndio Gundahar instalou um imperador fantoche no Império Romano, Jovino, em cooperação com Goar, rei dos alanos. Com a autoridade do imperador gaulês que ele controlava, Gundahar se estabeleceu na margem (romana) esquerda do Rio Reno, entre os rios Lauter e Nahe, apoderando-se de Worms, Speier e Estrasburgo. Aparentemente como parte de uma trégua, o imperador Flávio Augusto Honório, mais tarde concedeu a eles as terras.

Apesar do seu novo status de foederati, as incursões burgúndias na Gallia Belgica se tornaram intoleráveis e foram brutalmente encerradas em 436, quando o general romano Flávio Aécio convocou mercenários hunos que subjugaram o reino do Rio Reno (que tinha sua capital no antigo assentamento celta romano de Borbetomagus/Worms) em 437. Gundahar foi morto em combate, de acordo com o que foi relatado pela maioria das tribos burgúndias. A destruição de Worms e do reino burgúndio pelos hunos se tornou o assunto de lendas heróicas que foram mais tarde incorporadas no Nibelungenlied.

Por razões não citadas nas fontes, aos burgúndios foi concedido o status de foederati uma segunda vez, e em 443 eles foram reassentados por Flávio Aécio na região de Sapaudia (Chronica Gaellica 452). Apesar de a Sapaudia não corresponder a qualquer região atual, os burgúndios provavelmente viveram próximos a Lugdenensis, a atual Lyon (Wood 1994, Gregory II, 9). Um novo rei, Gundioc ou Gunderico, presumivelmente um filho de Gundahar, parece ter reinado a partir da morte de seu pai (Drew, p. 1). Ao todo, oito reis burgúndios da casa de Gundahar governaram até o reino ser invadido pelos francos em 534.

Como aliados de Roma nas suas últimas décadas, os burgúndios lutaram ao lado de Flávio Aécio e de uma confederação de visigodos e outras tribos na derrota final de Átila na Batalha dos Campos Cataláunicos em 451. A aliança entre os burgúndios e os visigodos parece ter sido forte, com Gundioc e seu irmão Chilperic I acompanhando Teodorico II à península Ibérica para atacar os suevos em 455. (Jordanes, Getica, 231)

Também em 455, uma referência ambígua (Sidônio Apolinário in Panegyr. Avit. 442) envolve um desconhecido líder traidor burgúndio no assassinato do imperador Petrônio Máximo no caos que precedeu o saque de Roma pelos vândalos. O aristocrata Ricimer também foi acusado; esse evento marca o primeiro indício de ligação entre os burgúndios e Ricimer, que era provavelmente cunhado de Gundioc e tio de Gundobad. (John Malalas, 374)

Os burgúndios, aparentemente confiantes no seu poder crescente, negociaram em 456 uma expansão territorial e um arranjo de divisão de forças com os senadores romanos locais. (Marius of Avenches)

Em 457, Ricimer causou a queda de outro imperador, Ávito, conduzindo Majoriano ao trono. O novo imperador mostrou ser imprestável para Ricimer e para os burgúndios. Um ano após a sua ascensão, Majoriano expulsou os burgúndios das terras que eles haviam adquirido dois anos antes. Após mostrar leves sinais de independência, ele foi assassinado por Ricimer em 461.

Dez anos depois, em 472, Ricimer – que agora era genro do imperador romano ocidental Antêmio – estava conspirando com Gundobad para matar seu sogro. Gundobad decapitou o imperador (aparentemente pessoalmente) (Chronica Gallica 511; João de Antióquia, fr. 209; Jordanes, Getica, 239). Ricimer então indicou Olíbrio). Ambos morreram, surpreendentemente de causas naturais, em poucos meses. Gundobad parece então ter sucedido seu tio como aristocrata e fazedor de reis, e elevou Glicério ao trono. (Marius de Avenches; João de Antióquia, fr. 209)

Em 474, a influência burgúndia sobre o império parece ter terminado. Glicério foi deposto em favor de Júlio Nepos, e Gundobad retornou à Borgonha, presumivelmente na morte de seu pai Gundioc. Nessa época ou um pouco depois, o reino burgúndio foi dividido entre Gundobad e seus irmãos, Godigisel, Chilperic II e Gundomar I. (Gregório, II, 28)

De acordo com Gregório de Tours, os anos seguintes ao retorno de Gundobad à Borgonha viram uma sangrenta consolidação de poder. Gregório declara que Gundobad assassinou seu irmão Chilperic, afogou sua esposa e exilou suas filhas (uma das quais se tornou a esposa de Clóvis I o franco, e foi responsável pelo que dizem pela sua conversão) (Gregory, II, 28). Isso é contestado, por exemplo por Bury, que aponta problemas na cronologia de Gregório para os eventos.

Por volta de 500, Gundobad e Clóvis I entraram em guerra, e Gundobad parece ter sido traído por seu irmão Godegisel, que se uniu aos francos. Juntas, as forças de Godegisel e Clóvis I “esmagaram o exército de Gundobad” (Marius a. 500; Gregory, II, 32). Gundobad esteve temporariamente escondido em Avignon, mas foi capaz de reagrupar seu exército e saquear Viena, onde Godigisel e muitos de seus seguidores foram executados. A partir daí, Gundobad parece ter sido o único rei da Borgonha. Isso implicaria que seu irmão Gundomar já estava morto, apesar de não haver nenhuma menção a isso nas fontes da época.

Ou Gundobad e Clóvis I se reconciliaram e esqueceram suas diferenças, ou Gundobad foi forçado a algum tipo de vassalagem após a vitória anterior de Clóvis I, com o rei burgúndio ajudando os francos em 507 na vitória contra Alarico II, rei dos visigodos.

Durante a revolta, em algum momento entre 483 e 501, Gundobad começou a apresentar a Lex Gundobada, lançando aproximadamente a primeira metade dela, que foi extraída da Lex Visigothorum. Após consolidar o poder, entre 501 e sua morte em 516, Gundobad apresentou a segunda metade de suas leis, que eram originalmente burgúndias.

Os burgúndios haviam estendido seu poder sobre todo o sudeste da Gália, ou seja, o norte da Península Itálica, o oeste da Suíça, e o sudeste da França. Em 493, Clóvis I, rei dos francos, casou-se com a princesa burgúndia Clotilda, filha de Chilperic.

Após inicialmente se aliar a Clóvis I contra os visigodos no começo do século VI, os burgúndios foram finalmente conquistados pelos francos em 534. O reino burgúndio passou a fazer parte dos reinos merovíngios, e os burgúndios foram amplamente absorvidos por eles.

Os burgúndios deixaram três códigos legais, que estão entre os mais antigos das tribos germânicas.

O Liber Consitutionum sive Lex Gundobada (O Livro da Constituição Segundo a Lei de Gundobad), também conhecida como Lex Burgundionum, ou mais simplesmente Lex Gundobada ou ainda Liber, foi lançado em várias partes entre 483 e 516, principalmente por Gundobad, mas também por seu filho, Sigismund. Era um registro das leis costumeiras e típicas de muitos códigos de leis germânicos desse período. Particularmente, o Liber copiou a Lex romana visigothorum e influenciou o posterior Lex Ribuaria. O Liber é uma das fontes primárias da vida burgúndia daquela época, e também da história de seus reis.

Como muitas das tribos germânicas, as tradições legais burgúndias permitiam a aplicação de leis distintas para etnias diferentes. Dessa forma, em adição à Lex Gundobada, Gundobad também lançou (ou codificou) um conjunto de leis para os assuntos romanos do reino burgúndio, a Lex Romana Burgundionum (“Lei Romana dos Burgúndios”).

Somando-se aos dois códigos acima, o filho de Gundobad, Sigismund, publicou depois o Prima Constitutio.

Origem do nome

O nome dos burgúndios era antes ligado à região da moderna França que ainda mantém seu nome. Entre os séculos VI e XX, contudo, as fronteiras e as conexões políticas da região mudaram com freqüência. Nenhuma dessas mudanças teve algo a ver com os burgúndios originais. O nome burgúndios refere-se hoje aos habitantes do território da Borgonha. Os descendentes dos burgúndios hoje são encontrados inicialmente entre os franco-falantes da Suíça e nas regiões fronteiriças da França.

O Ducado da Borgonha

O Ducado da Borgonha foi um dos estados mais importantes da Europa medieval, independente entre 880 e 1482. Não deve ser confundido com o condado da Borgonha, outro território da França. O feudo do duque da Borgonha correspondia aproximadamente à atual Borgonha, uma região da França.

Graças à sua riqueza e território vasto, este ducado foi política e economicamente muito importante. Tecnicamente vassalos do rei de França, os duques da Borgonha souberam conservar a autonomia, manter uma política própria e ser suseranos de diversos condados e senhorios, incluindo o condado da Borgonha (actual Franche-Comté).

A dinastia inicial de duques da Borgonha extinguiu-se em 1026, com a morte sem descendentes do herdeiro da casa, o duque Odo-Guilherme. Mas o ducado já tinha sido anexado em 1004 pelo rei Henrique I de França, que se tornou duque em 1016. Em 1032, Henrique I concedeu o ducado ao irmão Roberto, que fundou o ramo capetiano de duques da Borgonha.

O ducado reverteu para a coroa francesa e dois anos mais tarde João II de França concedeu o título ao seu filho mais novo Filipe de Valois. Filipe II casou com Margarida III da Flandres, e através desta união anexou à Borgonha o condado da Flandres, bem como Artois, Nevers e Rethel e os ducados de Brabante e Limburg.

A última duquesa da Borgonha independente foi Maria de Valois, que casou com Maximiliano I, Imperador do Sacro-Império. No casamento estava estipulado que o segundo filho herdaria os domínios da mãe, mas Maria morreu num acidente de cavalo antes que isso acontecesse. Depois desta tragédia, o Ducado da Borgonha foi incorporado à França, enquanto que os territórios dos Países Baixos passaram para o controle dos Habsburgos.