Uruguai – Vinhos e Gastronomia

Uruguai  •  Vinhos e Gastronomia •  História

Vinhos

Em 1978 expertos franceses chegaram ao Uruguai como consultores contratados para trabalhar com grupos de vitivinicultores, conscientes de que se encontravam em uma encruzilhada. Estes expertos visitaram vinhedos e adegas em todo o país, e sua conclusão foi clara: em breve deveriam ser feitas algumas mudanças.Atualmente, 20 anos depois daquele informe, estes e outros técnicos envolvidos em eventos internacionais conectados com a Organização Internacional da Vinha e o Vinho (OIV), referem-se ao processo de reconversão no Uruguai como um processo a ser seguido pelo resto do mundo.Em 1987, como resultado de uma iniciativa empresarial, foi criado o Instituto Nacional de Vitivinicultura (INAVI). INAVI é uma instituição pública não estatal, dirigida pelas mesmas organizações empresariais e presidida pelo Poder Executivo do governo nacional. O sucesso atingido pelo setor, estimulou às autoridades do Instituto, que propuseram o Uruguai como sede de um novo congresso da OIV, que teve lugar em Punta del Este em 1995. Assistiram ao evento mais de 500 participantes de 34 países.O reconhecimento atingido em numerosos concursos internacionais, o crescimento das exportações de vinhos uruguaios e a profundidade dos processos de reconversão, são o resultado de um incansável espírito inovador que os imigrantes europeus transmitiram às novas gerações em suas próprias famílias.

A cepa Tannat

O Tannat é o vinho varietal que iniciou a produção vitivinícola do Uruguai em nível comercial. Em 1870, Dom Pascual Harrigue, procurando uma cepa que se adaptasse ao solo e clima locais, introduziu ao país numerosas variedades de uva. Uma delas, a variedade Tannat originária do sul da França, teve muito sucesso e iniciou a produção de um vinho muito atrativo para os consumidores da época.Algum tempo depois, Harriague obteve o prêmio ao melhor vinho produzido no país, especificamente, pelo vinho Tannat. Por causa disso, desde 1877, o Tannat se conhece como o “Vinho Uruguaio”. Desde seus começos, o vinho Tannat apresentou qualidades técnicas de cor e estrutura que lhe dão seu valor enológico. Os Tannat são vinhos tânicos, de taninos suaves e macios, e uma atrativa cor.O Uruguai é o único produtor no mundo onde existem vinhedos significativos em quantidades ainda maiores que em sua terra nativa: Madiran e Irouléguy, sudeste da França. No Uruguai, a superfície plantada desta variedade, representa um terço dos vinhedos. O vinho Tannat apresenta dois princípios enológicos básicos: qualidade e características locais. Isto conduziu ao crescente reconhecimento do Uruguai como país produtor de vinhos de qualidade. A “identidade” ganhada com o vinho Tannat, abriu os mercados internacionais para outras variedades de vinhos uruguaios.

O vinho Tannat se expressa perfeitamente sozinho, mas apresenta também combinações de características particulares, em cortes como outras variedades. Isto tem como resultado uma grande diversidade, Tannat-Cabernet Sauvignon, Tannat-Merlot, Tannat-Cabernet Franc. Também se começou a elaborar vinho Tannat em barricas de Carvalho. Tudo isto significa que sozinho ou combinado com outras variedades, o Tannat se expressa magnificamente.

Gastronomia

(por Tânia Nogueira)

Alma espanhola

Certamente, a mesa uruguaia não nega a sua origem ibérica. A espanholíssima batata brava, que eu amo de paixão, pode ser encontrada em qualquer lugar, do boteco mais simples ao restaurante mais chique. As da foto são do Dcepa. Para enfrentar essa batata com molho de tomate super apimentado, é preciso um vinho potente. Eu sugiro um tempranillo, a mais espanhola de todas as uvas. Combinar vinho e comida de acordo com sua região de origem costuma não dar erro. O tempranillo da Bouza, uma bodega linda, na saída de Montevidéu, é estupendo. Tem um aroma super concentrado de fruta escura, mas sem aquele cheiro enjoativo de fruta madura em excesso. Na boca é redondo e macio. Vai muito bem com carnes, mas encara uma batata brava sem perder o estilo.

Trivial chiquérrimo

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Empanadas são tão uruguaias quanto chilenas ou argentinas. Pouca gente por aqui talvez saiba disso, mas as empanadas uruguaias são tão boas quanto as de seus vizinhos. Normalmente, são recheadas de carne, frango ou queijo. Mas a empanada da foto é especial, feita de alho-poró e panceta. Divina. Foi a entrada que nos serviram no lindo (e caro) restaurante da Bodega Narbona perto de Punta del Este. Conheci Valéria Chiola, a enóloga da Narbona, e seu delicioso pinot noir na Expovinis do ano passado. (Expovinis, para quem não sabe, é uma feira gigante de vinhos que acontece todos os anos em São Paulo.) Fiquei surpresa de encontrar um pinot uruguaio tão elegante e tive vontade de conhecer a bodega. Na região de Punta, eles têm uns vinhedos de uvas brancas e um restaurante delicioso. A vinícola mesmo fica em Carmelo, perto de Colonia del Sacramento, já lá embaixo, na fronteira com a Argentina. Fui nos dois, no restaurante e na bodega, onde descobri que a região de Colonia, que tem um solo calcário semelhante ao da Borgonha, é fantástica para a pinot noir e fiz uma nova degustação com Valéria. Gostei de todos os vinhos, mas o pinot continua sendo o meu favorito. Com a empanada de alho-poró ele é perfeito. Ambos conseguem ser delicados e marcantes ao mesmo tempo.

Carnívoros acima de tudo

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Uruguaios, como a maior parte dos povos do Sul, são antes de tudo amantes de um bom churrasco. Carne grelhada é o prato nacional. Têm orgulho em dizer que, à diferença dos hermanos do outro lado do Rio da Prata, sua parrilla não é feita com carvão e, sim, com lenha. Isso faz toda diferença no aroma e no sabor da carne. O prato ao lado nos foi servido em um almoço na casa da família Pisano, proprietários da Pisano Artesania en Vinos Finos, em Progreso, na região de Canelones, muito próximo a Montevidéu. Sinto informar que os Pisano não têm um projeto de turismo. Recebem visitas apenas de negociantes, jornalistas e gente do mundo do vinho. Uma pena, a carne que me serviram foi a melhor que comi no Uruguai. Eles não têm um restaurante, mas a parrilla esteve a cargo do chef Gérman Pisano, que trabalhou no restaurante Eñe em São Paulo. Gérman é filho de Eduardo Pisano, um dos três irmãos que tocam a bodega. Usou lenha de vinhas velhas plantadas por seu bisavô. Acompanhando a carne, veio uma salada de tomate com manjericão e cebolinha, tudo da horta da casa. Sem palavras… Experimentamos uns dez vinhos da família. Todos muito bons. Gostei especialmente do Pisano RPF Tannat, um vinho escuro, denso, com aroma de frutas escuras e especiarias, que conserva toques florais e, na boca, é super fresco sem deixar de ser macio. Mais do que os outros, arredondou o sabor da carne.

Cortes nobres

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Distante apenas uns poucos quilômetros do centro de Montevidéu, a Bouza Bodega Boutique é um passeio delicioso mesmo para quem está na cidade a negócios. Eles têm um lindo parque, vinhedos onde o turista pode provar uvas viníferas em tempos de colheita e um ótimo restaurante, com uma das grelhas mais profissionais que conheci na vida. Conseguiram até fazer um filé para meu amigo alto , bem passado, e ao mesmo tempo suculento e macio. Uma das especialidades da casa é o carré de cordeiro. Para acompanhá-lo em grande estilo, nada melhor que o vinho top da bodega, corte de tannat, merlot e tempranillo: Monte Vide Eu (palavras ditas pelo português que descobriu a cidade). Um vinho escuro, cheio de aromas que vão surgindo enquanto a taça descansa na mesa. Encorpado mas macio, encara o cordeiro com maestria.

Tudo no mesmo tom

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Chegamos a Colonia del Sacramento no fim da tarde e corremos para ver o pôr-do-sol no Rio da Prata. Nosso único critério para escolher um bar foi que ele tivesse vista para o rio e fosse totalmente voltado para o oeste. Demos sorte, a Parrilla Santa Rita é um bom ponto para quem quer descobrir vinhos uruguaios pouco comuns. Felipe, o simpático e falante garçom, nos indicou o Pinot Viejo 2002, da Los Cerros de San Juan, uma bodega histórica que começou a produzir vinhos finos em 1854. O vinho de 12 anos estava perfeito. A cor era maravilhosa, de um rubi translúcido que combinava perfeitamente com a luz que ia se formando no horizonte, com o sol se pondo atrás do distante skyline de Buenos Aires. Achei que a idade tinha acrescentado aromas animais e terrosos ao vinho, sem levar embora as frutas e, surpresa, nem o floral. Depois, descobri que ao vinho de 2002 foi acrescentado um pouco de pinot noir 2012. Isso explica a fruta e a flor no nariz e a ótima acidez na boca. Para acompanhá-lo pedimos algumas tapas espanholas. O prato de gambas al ajillo, também carmim, foi o que fez mais sucesso. A combinação ficou ótima, provando que esse pinot é um velhinho bastante sarado. Não é qualquer vinho que enfrenta o molho picante e carregado no alho desse petisco típico da Espanha.

Um rótulo atípico para um prato típico

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Matambrito de cerdo é um de meus pratos preferidos sempre que vou à Argentina. Fiquei feliz de ver que no Uruguai esse corte, que corresponde à capa de costela do porco, também é muito popular. Em Colonia, no restaurante Marlo, comi um sensacional, com pouca gordura, bastante carne, suculento. As carnes brancas do porco, como é o caso do matambrito, vão bem com branco ou tinto. Se for tinto, o vinho precisa ter ótima acidez para cortar a gordura e um corpo médio para não esconder a delicadeza do sabor da carne. Poucos tannats são delicados, o Tannat de Reserva da vinos Finos Carrau é e muito. Se eu não visse o rótulo, talvez achasse que estava diante de um pinot noir ou, no máximo, de um tempranillo já um tanto evoluído. Começa pela cor: ele é de um vermelho granada, translúcido e, não escuro como em geral são os tannats. O perfil aromático também é único: tem frutas vermelhas (e não negras), flores, algo de couro. Na boca, tem taninos, mas bem menos do que se espera. Gostei bastante, mas é bem pouco típico. Ou, pelo menos, a garrafa de 2011 que tomei estava bem pouco típica.

O lado italiano do Uruguai

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Colonizados pelos espanhóis, os uruguaios, assim como nós e os argentinos, receberam um grande número de imigrantes italianos. A herança é visível na expansividade do povo e em muitos dos costumes da mesa local. As milanesas, por exemplo, se tornaram uma tradição. Poucos restaurantes, do mais simples ao mais sofisticado, não têm um bife à milanesa no cardápio. Para um prato italiano, uma cepa italiana: vamos de Viña Progreso Sangiovese. Projeto particular do jovem Gabriel Pisano, a Viña Progreso tem produzido vinhos deliciosos. Este sangiovese é escuro, mas translúcido. No nariz, tem frutas negras, café. Na boca é super redondo, mas tem a acidez necessária para contrabalançar a gordura de um bom milanesa.

Os bravos também amam os bons vinhos

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Parrillada, esse é o nome do prato mais típico do Uruguai. Confesso que não tive coragem de comer. Além de diferentes cortes de vaca, porco e cordeiro, leva vegetais e tudo quanto é parte interna dos bichos. Varia de restaurante para restaurante. Mas pode ter moela, miúdos, rins, etc. Como o prato reúne muitos alimentos de diferentes sabores e texturas, a harmonização só pode ser feita pelo critério regional. E o mais uruguaio de todos os vinhos ainda é o tannat. O Cuna de Piedra, da Los Cerros de San Juan, costuma ter um ótimo preço nas cartas de todo o país. É um vinho escuro, com frutas negras e algo de floral no nariz, que terá 92 pontos no primeiro Guia Descorchados a incluir vinhos uruguaios.

Roots total

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Desde que cheguei ao Uruguai, fiquei com vontade de comer o tal do chivito, uma espécie de X-tudo de filezinho. Mas fui adiando porque sempre queria experimentar bons restaurantes. No penúltimo dia, já em Rivera, a cidade uruguaia que fica do outro lado da praça principal de Santana do Livramento, resolvi atacar. Entrei no El Borrego, um restaurante/café na avenida dos duty frees, e pedi um chivito. O sanduíche gigante, além de carne, ovo, queijo, presunto e salada, leva pimentões em conserva, azeitonas verdes e bacon, muito bacon. Uma melequeira deliciosa. Comi esse chivito com Coca-Cola, uma harmonização perfeita. A Cláudia comeu o dela (de frango) acompanhado da cerveja uruguaia Patrícia. Segundo ela, ótimo. No dia seguinte, antes de partir para Porto Alegre, resolvi testar o chivito com um vinho bem simples para ver se rolava. No próprio El Borrego, havia garrafinhas de 187 ml do Don Pascual Brut Blanc de Noir. Apesar do nome, não se trata de um espumante e nem de um vinho branco, é um rosé. Já havíamos tomado em Montevidéu. Um vinho honesto, bem seco e bem fresco, sem muita intensidade de aromas, mas com ótima acidez. Funcionou em contraposição à gordura do sanduíche, que é cheio de maionese.

Doce ao quadrado

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Usuários de cannabis costumam amar açúcar. E eu achei que talvez falhasse com eles. Pois, harmonizar um vinho uruguaio com os doces uruguaios me parecia impossível até que descobri que aquilo que eles chamam de licor de tannat é, na verdade, um vinho fortificado. Bastante doce, aguenta até o delicioso dulce de leche daquelas paragens. No almoço na casa dos Pisano, eles nos serviram sorvete de creme com doce de abóbora e doce de figo acompanhado do licor de tannat Etxo Oneko. Combina técnicas de vinificação do vinho do Porto, do Recioto e do Amarone. Cheio de especiarias, frutas escuras e algo meio selvagem no nariz, o vinho transformou aquela sobremesa tão cotidiana em algo bastante sofisticado.Tem muitos taninos e talvez menos açúcar que o doce de figo, por exemplo, nem por isso, senti qualquer amargor na boca.

 

fonte : http://www.brasilpost.com.br/tania-nogueira/

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